A ESTETIZAÇÃO DO OLHAR MIDIÁTICO
Por L.Fernanda Cimino
“O que somos capazes de ver e o que nos escapa ao olhar?”, “Conhecer o mundo através das imagens é criar um outro mundo possível?”. A cada dia sentimos com maior evidência o modo como a tecnologia da imagem se transformou em prótese do olhar, sendo praticamente impossível falar da nossa existência no mundo atual sem os aparatos técnicos que acabam por modificar a própria natureza humana. A distinção entre natureza e cultura não pode mais se sustentar. Aliás, na complexidade do mundo contemporâneo, não há espaços para o pensamento dicotômico e cartesiano. Os produtos culturais de nossa época estão entranhados em nossa experiência, forjando uma nova subjetividade que só é possível de ser compreendida quando levamos em conta o modo como assimilamos o tato e o contato com os diferentes aparatos que estão mediando nossas relações com o mundo físico e social. A comunicação hoje cumpre uma função estética e supre o vazio do significado que nos vitima a todos e quer cada vez nos pede doses maiores. É preciso que as coisas sejam cada vez mais intensas no minuto seguinte.
“Os homens já não decifram as imagens como significados do mundo, mas o próprio mundo vai sendo vivenciado como um conjunto de imagens. Não sabendo mais servir-se das imagens em função do mundo, eles passam a viver em função de imagens, de modo que estas últimas, tradicionalmente encaradas como mapas, se transformam gradativamente aos seus olhos em biombos, cuja função já não é mais representar, mas mascarar o mundo”. (MACHADO, 1998)
Levando em consideração esta crítica, nossa proposta é intervir para que o olhar não seja empobrecido e aprenda a usar a tecnologia para construir estratégias de interação com o mundo físico e social, que sejam promotoras de um certo modo de ver as coisas, interpretando e recriando o mundo de muitas e diferentes maneiras. Isso significa assumir um compromisso de desencadear um conhecimento que desmarcare a superficialidade (estetização) e a padronização (industria do entretenimento) do olhar, permitindo um contato mais profundo com a leitura e a interpretação das imagens que inflacionam o nosso cotidiano no impedindo de “ver”.
A saturação do olhar
Estamos cercados de imagens que nos apelam para os olhos e, por meio dos olhos, apelam para os sentidos. No entanto, é como se não conseguíssemos ver nada. É dessa maneira que nós vivemos numa sociedade em que há a tirania da imagem que vale também para os cegos, que não conseguem ver e, não obstante, acabam compondo seu discurso, o seu pensamento e o seu consumo a partir da oferta de imagens. É como se nós estivéssemos em uma sociedade em que os cegos enxergam por imagens que não vêem e os que vêem não enxergam (...). Enfim, nós dizemos o que somos a partir da maneira pela qual colamos todos esses signos são sem raízes e sem história. Eles não trazem o pensamento que estaria por trás deles, são signos soltos, é a miríade ou o Luna Park de que fala Saramago, no documentário, “Janela da Alma”. O mito da caverna de Platão trata de algo muito conhecido que são as pessoas que, olhando para as sombras da caverna, julgam ver a realidade. E era preciso que descobrissem que a realidade, o mundo, estava do lado de fora da caverna e o que viam nada mais era do que uma projeção. Nós na verdade, demoramos dois mil e quinhentos anos para entrarmos todos dentro de uma caverna. Vivemos dentro da caverna platônica.
Os olhos são a “Janela da Alma”
Leonardo já havia dito que os “olhos são a janela da alma”. Se pensarmos os séculos XVI, XVII e XVIII, como o ambiente no qual a razão tinha lugar no debate público, e o compararmos com o novo ambiente da atualidade, em que a emoção e a sedução ocupam espaços antes dados ao argumento racional, teremos noção do fenômeno que estamos tentando descrever. Os dados da cidadania, os dados da razão são transformados em objetos do desejo e este é necessariamente inconsciente. É por isso que a política cede lugar ao marketing, que o ideólogo do partido político cede lugar ao publicitário. Alguém já disse “que hoje não é importante ser honesto, mas, sobretudo é necessário parecer honesto”. É também por isso que o consumo das idéias segue, cada vez mais, as regras do desejo e, cada vez menos, as regras da razão. Uma das características desse contexto é o apelo do sistema midiático para a emoção e a excitação dos sentidos. Esse mundo formidável das imagens simultâneas e instantâneas supre uma função que antigamente era reservada à religião e à arte e hoje passa a ser reservada à indústria do entretenimento que diz o que nós somos para nós mesmos. “Você é aquilo que veste”, diz o slogan publicitário.
O olhar na era da reprodutibilidade técnica
O filósofo da Escola de Frankfurt Walter Benjamin, escreveu em 1936, um ensaio que seria considerado um marco nos estudos da cultura de massa e no próprio estatuto da arte moderna, intitulado “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”.
Benjamin afirma que com as novas técnicas de reprodução (cinema, rádio, fotografia, etc) não é a arte que está em crise na modernidade, mas o conceito do que é arte. E quando dizemos que é o conceito da arte que está sendo modificado, isso implica em dizer que o conceito é somente dado pela Estética. “Com o advento do século XX, as técnicas de reprodução atingiram tal nível que, em decorrência, ficaram em condições não apenas de se dedicar a todas as obras de arte do passado e de modificar de um modo bem profundo os seus meios de influência, mas de elas próprias se incorporarem como formas originais de arte”. (BENJAMIN, 1998).
Em outras palavras, Benjamin está afirmando que o que está se modificando na era da reprodução técnica é a sensibilidade e a percepção do homem moderno. É a sua forma de olhar para o mundo. A reprodução técnica proporcionou o acesso e a aproximação da massa aos objetos culturais. Ou seja, a nova sensibilidade das massas é a aproximação. É esse sentido, o novo sensorium que se expressa e se materializa nas técnicas como a fotografia e o cinema que violaram e profanaram a sacralidade da “aura” da obra de arte, fazendo possível um outro tipo de experiência das coisas e outro modo de acesso a elas.
A alfabetização do novo olhar
A educação estética do olhar é aquela que incentiva o educando a intervir no ritmo dispersivo e intermitente que, em geral, estamos acostumados a exercitar quando interagimos com as imagens no cotidiano. Deixar de ser dominado pelas imagens é saber criar sentidos novos, composições que a que alteram e libertam nossa percepção do mundo em variadas direções. Aprender a ver o mundo com outros olhares, resgatando a sua condição de diversidade, é formar leitores de imagens que sabem dar sentido estético e ético ao modo como produzimos conhecimento na contemporaneidade. Esse é um dos maiores desafios para a educação nos dias atuais. “A experiência atual com as imagens, quer sejam fotográficas, cinematográficas ou televisivas, acontecem na maioria das vezes de forma espontânea, intermitente, fragmentada, enfim, de modo superficial. Com a proliferação das imagens, a cada dia elas perdem mais a sua capacidade de dizer algo a alguém, pois as pessoas que vivem essas dispersão perceptiva de modo permanente acabam por perder a sensibilidade para ver as coisas, enxergando-as como signos, extraindo sentidos diferenciados da materialidade do mundo e dos significados incorporados às imagens que nos rodeiam. A leitura de imagens como uma atividade subjetiva compromissada com a experiência racional e sensível de tomada de consciência do mundo deve ser conquistada e, portanto, exige uma alfabetização ou uma educação estética do olhar” (BUCCI, 2004).
Um comentário:
Estamos com saudade!
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